Era fim de tarde. O pretexto do lanche levou à conversa desenfreada. Estávamos num momento descontraído, entre amigas. Aproximou-se alguém. Era desconhecido mas nada acanhado. Queria um cigarro, mas não tínhamos. Ao contrário do que estávamos à espera não desistiu, continuou a insistir.
A aparência não o favoreceu e a conversa não fluíu da melhor maneira. Ele estava a interromper o nosso momento e nós não gostámos. Estava alcoolizado e, aparentemente, drogado. As roupas escuras e estragadas e as palavras atropeladas acentuavam o seu mau aspecto.
A certa altura o mote já não era o cigarro. Queria saber o que estudávamos. Já fazia perguntas indiscretas. Fartas, dissemos que saísse dali. Talvez de forma algo arrogante.
Ele prontamente respondeu com a frase em que tenho vindo a reflectir desde esse momento: "Não interessa o que pensam, interessa o que aparentam. E vocês são bonitas e aparentam simpatia."
Ficámos impávidas. Ao mesmo tempo que percebíamos o que nos tentava dizer, apercebemo-nos da lição que nos estava a dar. Na verdade, ele tinha razão. Se ele próprio não tivesse aquele aspecto, nós não teríamos sido arrogantes, até porque, sendo racional, percebemos que nada do que nos disse era mais do que inoportuno. Não foi mal educado, simplesmente inoportuno. Mas como ele próprio dissera, a aparência falou por ele.
Os amigos acabaram por vir buscá-lo.
Infelizmente, e apesar de nos ter feito pensar no que disse, continuo a não conseguir augurar um bom futuro para este rapaz. Talvez um dia me surpreenda.
É tão verdade que ele estava física e psicologicamente afectado como tão verdade é que tinha momentos de uma lucidez rara. Ainda disse algo como "eu posso estar todo mocado mas é o mundo que já está estragado!"
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